A Era Industrial ainda está entre nós

Peter Senge, um dos mais conceituados pensadores da moderna administração, esteve no Brasil no final de junho para proferir palestra no 34º Congresso de Recursos Humanos, promovido pela ABRH-RJ. Falando sobre o tema “Evolução Organizacional: A Força da Presença Humana”, o autor do livro “A Quinta Disciplina” foi bastante provocativo ao afirmar que “já estaríamos na Era da Informação se os gerentes das empresas realmente vivessem a mudança em seus corações”. Segundo ele, a despeito de todo frenesi eletrônico, não paramos para nos perguntar o que essas tecnologias estão fazendo por nosso crescimento enquanto pessoas. Ele chegou a divulgar dados de pesquisas que apontam que as pessoas “mais plugadas”, ou seja, aquelas que passam mais tempo na frente do computador, têm seu QI diminuído em 20 a 30 pontos em relação a aqueles que usam, também, outros meios para se informar como jornais, revistas, livros, palestras e cursos.
Senge: com palestra provocadora, permitiu uma reflexão profunda sobre vários temas que preocupam os profissionais do setor.

Discurso e prática – Para um público de mais de 800 pessoas, Senge apontou diferenças entre discurso e prática: “É ótimo o RH mundial saudar o crescimento das pessoas e pedir que as empresas invistam nisso, mas sabemos que na prática isso não ocorre”, lamentou Senge, evidenciando problemas entre o que se diz e o que se pratica nas organizações.

Senge assinala que ainda há inúmeras áreas de Recursos Humanos que não podem se autodenominar como “gestoras de pessoas”, pois se deixam dominar pelas máquinas, automação e informatização. Ele assinala que, na velocidade e ritmo que as coisas estão indo, as pessoas não se preocupam em olhar o significado de “Recursos Humanos” no dicionário e perceber que estão rotulando seres humanos como coisas que podem ser “usadas”. Isso acontece porque ele acredita que, sempre se pensou a organização como uma grande máquina.
 
Organismo vivo
– Contra a visão da empresa enquanto máquina, Senge assinala que as empresas que estão em melhores condições são justamente aquelas que se enxergam e agem como organismos vivos. Mas Senge alerta: deixar de ser máquina para agir como um organismo que valoriza o ambiente e as pessoas que integram a organização é uma tarefa que exige mudanças culturais profundas. “O RH deve começar a se perguntar e a perguntar também para seus alto executivos, que tipo de linguagem usam com os funcionários? A empresa é uma comunidade viva ou máquina de fazer lucro? Como as decisões são feitas? Como o poder funciona? Há outros líderes além do número 1? Como eles trabalham? Os gestores devem refletir sobre a escolha das palavras, pois nelas está o caminho para muitos atalhos nos diagnósticos”, esclarece Senge.

Braço direito
– Em tom de alerta, Senge enfatizou que conheceu poucas empresas onde a área de RH está no centro do poder. “Não queria ser rude, mas digo que, infelizmente, vocês de RH não têm poder para mudar uma organização sozinhos, para evitar os sérios desastres ambientais que o homem está provocando e as sérias atitudes danosas também ao ambiente interno das organizações”, garante Senge, que diz ter visitado já mais de mil empresas e encontrado apenas umas três ou quatro com um RH realmente como braço direito do presidente.

Para que as organizações mudem, acredita Senge, a mudança tem que partir do coração dos gerentes de todos os níveis da empresa em um trabalho contínuo, o que torna evidente que as organizações precisarão de líderes em muitos níveis, pessoas que gerem valor em função de sua vivência.

Como medir a paixão? - Citando Edwards Deming, Senge rejeita a visão sistêmica que defende a mensuração de resultados como a única capaz de definir a qualidade nas práticas de uma empresa. “Como podemos medir o espírito, a paixão, a paciência, a perseverança; muito mais além disso, não conseguimos medir inovação, pois esta tem a ver com o risco, com a emoção”, explica.
 
Senge acredita que é a cultura da escola do passado, com sinetas, repreensões, marcas vermelhas e a vergonha do erro, a grande inibidora e inimiga do processo de construção de um homem inovador. “O aprendizado é cheio de erros, o problema é que a cultura da escola gera na criança o trauma de errar; os professores fazem uma profunda lavagem cerebral; mas não culpo os educadores e sim as escolas que agem assim porque foram criadas historicamente para alimentar a linha de produção das fábricas”, comenta Senge.

Ele enfatiza que as pessoas são autônomas e devem ser estimuladas a tomar suas decisões. “Os seres humanos são autônomos porque os organismos vivos são autônomos e vamos ser exatamente aquilo que temos potencial para ser”, justifica Senge.

Comunicação
– Para Senge, a autenticidade no espaço do trabalho exige liberdade de relacionamento e estímulo ao trabalho em equipe, algo que só se viabiliza por meio de processos de comunicação honestos e sinceros. Por isso, ele enfatiza que as áreas de RH precisam de comunicadores em seus espaços, pois áreas como essas sem comunicadores enfrentam graves problemas de atuação em empresas onde se reúnem duas ou mais gerações.

Senge concluiu lembrando que o RH estratégico de fato é “aquele que trabalha para o bem-estar de suas pessoas internas e externas e não aquele que é amiguinho do presidente”. A ABRH-RJ vai disponibilizar em seu site o vídeo completo da palestra de Senge.