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O papel do RH nas crises
Por Ralph Arcanjo Chelotti (*)

Talvez não exista área mais pressionada em uma empresa em situações de crise quanto a de Recursos Humanos. Por um lado, pressionada por uma visão de redução de custos a qualquer preço, ela se vê obrigada a empreender processos de demissão de pessoas com os quais nem sempre compactua. Por outro, após anos de investimentos em treinamento e capacitação, se vê impotente ante a saída de profissionais e talentos que, certamente, farão muita falta em momentos de retomada.

Este dilema, de difícil solução, só pode ser resolvido pelo desenvolvimento de um novo profissional de Recursos Humanos, alguém que se faça ouvir em momentos de crise, mesmo atuando em áreas consideradas periféricas nesse momento, como a área de gestão de pessoas. Mas o que é preciso para que estes profissionais assumam um papel de destaque nas organizações, tornando-se, assim, uma referência em qualquer situação?

Embora este não seja um caminho de rosas, a transformação do profissional de RH em uma referência dentro das organizações passa pela própria reinvenção destas pessoas. Estima-se que existam cerca de 1 milhão de profissionais atuando no segmento de gestão de pessoas entre as 6 milhões de empresas no Brasil. Uma análise do perfil universitário destes profissionais vai relevar que a maioria tem formação em administração de empresas, psicologia, direito e engenharia, o que revela de modo importante a visão de mundo destes especialistas.

Ainda que a maioria dos gestores de pessoas tenha nível universitário, o que é louvável por si só, a revolução que estas pessoas precisam fazer em suas carreiras passa, necessariamente, pela compreensão de que este complexo universo exige, cada vez mais, pessoas generalistas, que compreendam todos os aspectos necessários ao sucesso de uma organização, inclusive em momentos críticos de crise e escassez de recursos.

É comum o fato de que em momentos onde a sobrevivência da empresa está em jogo são mais ouvidas aquelas vozes que propõem ajustes simples e racionais, fáceis de compreender e que proporcionam resultados a curto prazo. Na maioria dos casos, esta voz equivale à natureza direta e objetiva das áreas financeiras, que apresentam a realidade na frieza de uma planilha de cálculo, onde 2 + 2 sempre serão 4.

Muito embora as realidades complexas sejam difíceis de se traduzir em planilhas de cálculo, o que explica as razões pelas quais falham a maioria dos planos de ajustes, os profissionais de Recursos Humanos precisam compreender que é importante traduzir sua visão de mundo em uma mensagem que as lideranças consigam compreender e, mais importante, possam ser facilmente traduzidas para as bases da organização.

Muitos estudos evidenciam o fato de que as próprias lideranças empresariais carecem da formação necessária ao bom desempenho administrativo. Isso torna essas lideranças presas fáceis de argumentos cartesianos e simplórios como, por exemplo, a lógica de que demitir 20% dos quadros enxugará os custos em 10%, uma “lógica” que ignora aspectos como evolução de mercado, concorrência, formação das lideranças dos concorrentes, expectativas de crescimento pós-crise, entre muitos outros.

Neste dia 3 de junho, quando comemoramos mais um Dia do Profissional do RH, acreditamos que chegou a hora desse profissional mostrar ao que veio e do que é feito, pois já é mais do que evidente que as organizações que tratam a gestão de pessoas com mais profissionalismo e competência são justamente aquelas que seguem imunes à crise.

Ralph Arcanjo Chelotti é executivo de RH, palestrante, presidente da ABRH-Nacional e Vice-Presidente da Região Sul da Federação Interamericana das Associações de Gestão Humana (FIDAGH).