Não fizemos a lição de casa, e agora?

Por Cirlene Werneck*

Economia forte e previsão de grandes investimentos com a realização da Olimpíada e da Copa do Mundo fazem do Brasil a bola da vez. A grande oportunidade para crescermos, entretanto, esbarra na carência de profissionais qualificados.

Grandes investimentos em infraestrutura, equipamentos e novas tecnologias estão sendo realizados e precisarão ganhar maior velocidade nos próximos anos. Mas pessoas não estão à disposição nas prateleiras dos supermercados; prepará-las e formar equipes demanda tempo e continuidade. Afinal, fizemos o investimento necessário nas pessoas?

O governo tem realizado ações para aumentar o acesso das pessoas à educação de nível superior e, mais recentemente, nos cursos técnicos, importantíssimos para o momento atual. Tivemos maior oferta de vagas nas universidades e um maior número de pessoas que antes não tinham acesso a um curso superior passou a ter. Porém, muitos desses cursos têm qualidade questionada, dando ao aluno um diploma que pouco diferencial trará nas suas carreiras. Além disso, cursos como o de Engenharia, fundamentais para alicerçar o crescimento, ficaram de lado.

E as empresas? Investiram em estruturas modernas e arrojadas, adquiriram novos equipamentos e tecnologias de ponta que nada deixam a desejar para os demais países. Porém, veio nova crise e parece que a maioria nada aprendeu com as crises anteriores, cortando totalmente o investimento na capacitação e no desenvolvimento das pessoas. Enxugaram seus quadros e reforçaram o discurso sobre a importância de as pessoas investirem na sua empregabilidade para que, em épocas de “crise”, estivessem mais preparadas para o mercado.

E não é que isso aconteceu? As pessoas foram atrás da tal empregabilidade. Voltaram aos bancos escolares, pagando um curso que cabia nos seus bolsos e que podiam conciliar com o trabalho. Muitas não fizeram exatamente o curso que gostariam de frequentar. Como resultado, algumas cresceram profissionalmente, outras enxergaram novos horizontes e despertaram para novos caminhos e novas oportunidades, mas, infelizmente, um grande número recebeu um canudo que nada acrescentou a sua carreira.

Qual foi o resultado para as empresas? Um descompasso entre o perfil desejado e o disponível e, pior, a ausência de profissionais disponíveis. E agora, ainda dá tempo? Num esforço redobrado, elas precisarão, além de qualificar e desenvolver seus colaboradores, formar novos profissionais que possam ser contratados.

Por que a maior parte das empresas investe grandes valores em tecnologia, equipamentos e estruturas, mas resiste tanto em investir nas pessoas? Receio de que essas pessoas venham a ser contratadas pelos concorrentes? Por que o investimento nas pessoas nunca termina? Por que não podem tirar as pessoas das suas atividades para treiná-las?

Certamente é melhor ter colaboradores desejados pelos seus concorrentes, porque isso mostra que eles fazem a diferença e tornam a sua empresa melhor. E, sendo melhor, a empresa terá condições de realizar outras ações que contribuirão para a retenção dessas pessoas. Além disso, um profissional que se percebe crescendo e com espaços para novos desafios não trocará essa organização por outra que não tenha tal preocupação.

Quanto ao segundo argumento, estruturas físicas também necessitam de manutenções constantes. Novas tecnologias precisam ser atualizadas com frequência demandando investimentos elevados e constantes. Não tiramos as pessoas do seu local de trabalho quando mudamos estruturas e quando implantamos novas tecnologias? Certamente, estando mais preparadas, serão mais produtivas e, consequentemente, terão mais tempo para realizar as suas atividades.

Olhando esse quadro, fico pensando: estrutura física, equipamentos e tecnologia pertencem àquele que realizou o investimento, já o investimento feito nas pessoas fica com elas e não com quem investiu. Será que essa sensação de “gastar” com algo que não irá me “pertencer” pode fazer com que, inconscientemente, passemos a evitar esse tipo de investimento?

Certamente, as empresas que investem nas suas equipes veem os seus colaboradores como parte da organização e eles se sentem parte da mesma. Nessas empresas, os investimentos em qualificação e desenvolvimento das pessoas não só pertencem à organização como trazem retornos que impactam diretamente nos demais investimentos realizados.

*Cirlene Werneck é sócia-diretora da WEC Desenvolvimento Empresarial e diretora de Certificação Profissional da ABRH-Nacional
 

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